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Autor dos livros da Eternidade 1, Fatos, Caminho, Lapidar, Magia e Discípulos.
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O Código Duro de Matar
O Código Duro de Matar
A demência frontotemporal (DFT)
Não há cura, e a progressão é inevitável, entretanto vamos
verificar.
A DFT "ataca" o que nos define como seres sociais,
a personalidade, o comportamento e a linguagem. Isso ocorre devido à atrofia
dos lobos frontal e temporal do cérebro.
Se considerarmos apenas o córtex cerebral (a
camada externa "enrugada"), os lobos frontais e temporal juntos chegam
a representar cerca de 50% a 60% dessa área.
Vastidão de Funções: Como eles cobrem uma área
enorme, a doença afeta desde o controle de impulsos e planejamento (Frontal)
até a memória semântica, reconhecimento de rostos e compreensão da linguagem
(Temporal).
Visibilidade em Exames: Devido ao seu grande
tamanho, quando a atrofia ocorre na DFT, a perda de volume nesses locais
torna-se muito evidente em exames de ressonância magnética, criando o aspecto
de "encolhimento" característico.
Se uma metade do cérebro está comprometida devemos inserir
estímulos na outra metade.
Estímulo Visual e Espacial (Lobos Occipital e Parietal): Como
essas áreas costumam ser preservadas por mais tempo na DFT, usamos pistas
visuais.
Exemplo: Em vez de dar uma instrução verbal
complexa (que exige o lobo temporal), usamos placas, cores e setas no chão para
guiar o paciente pela casa.
Memória Procedural e Música: Áreas motoras e de
processamento rítmico podem estar intactas.
Exemplo: O paciente pode esquecer o nome dos
filhos, mas ainda consegue tocar um instrumento ou seguir um ritmo. A música é
um dos estímulos mais poderosos para acessar áreas que a doença ainda não
tocou.
Atividade Física: Estimular o cerebelo e o
córtex motor ajuda a manter a autonomia física e a reduzir a ansiedade,
"gastando" a energia que a falta de inibição frontal gera.
A estratégia da "Reserva Cognitiva"
Estimular a "outra metade" ajuda a criar o que
chamamos de reserva. Um cérebro que continua sendo estimulado
visualmente e fisicamente tende a lidar melhor com a perda de outras funções,
retardando a perda total de independência.
O segredo é: O estímulo não deve ser um
"exercício difícil" (que estressa o frontal), mas sim uma atividade
prazerosa e sensorial (que usa o parietal e o occipital).
A Neuroplasticidade Compensatória.
Vicariância (Assunção de Funções)
Este é o termo técnico para quando uma área saudável assume
a função de uma área danificada.
Nas áreas "menos motivadas": Os
lobos Parietal (sensorial) e Occipital (visão)
são, muitas vezes, as partes menos "exigidas" em tarefas de decisão
social, mas estão íntegras na DFT.
A estratégia: Ao inserir estímulos intensos
nessas áreas (como exercícios de toque, reconhecimento visual de cores ou
orientação por mapas), forçamos o cérebro a criar novas "estradas"
neurais que desviam da área frontal danificada.
Neuroplasticidade por "Enriquecimento
Ambiental"
O cérebro responde diretamente ao ambiente. Se o ambiente é
monótono, as partes saudáveis também "desligam".
O que fazer: Inserir novos estímulos (música,
texturas, atividades físicas) libera substâncias chamadas fatores
neurotróficos (como o BDNF). Eles funcionam como um
"fertilizante" para os neurônios que ainda estão vivos, tornando as
conexões entre eles mais fortes e resistentes.
O paciente pode continuar executando tarefas do dia a dia,
não porque a área doente melhorou, mas porque as áreas saudáveis ficaram tão
"treinadas" que aprenderam a compensar a falha.
Exemplo real: Um paciente com DFT que perde a
capacidade de planejar o banho (falha frontal) pode ser treinado para responder
a um estímulo visual de cores no banheiro (estímulo occipital/parietal). O
cérebro usa a "visão" para substituir o "pensamento".
Independente do treinamento e das novas rotinas,
completamente diferentes de uma pessoa normal, ainda sim o paciente sofrerá o
intelecto reduzido, porem terá uma visão da vida completamente nova.
A Mudança do "Pensar" para o "Sentir"
Quando o lobo frontal (o filtro crítico e o juiz) perde
força, o paciente para de viver no futuro (preocupações) ou no passado
(arrependimentos).
Foco no Agora: A pessoa passa a ser guiada por
estímulos imediatos. Se o sol está batendo na pele e está agradável, aquela é a
realidade total dela.
O fim das máscaras sociais: Há uma honestidade
brutal. Sem as convenções sociais, o paciente expressa o que sente no momento
exato, sem filtros.
O Despertar da Criatividade Visual
Existem casos documentados de pacientes com DFT que,
conforme perdiam a fala e a lógica, desenvolviam um talento artístico
extraordinário.
Por que acontece? Como o lobo temporal esquerdo
(linguagem) silencia, o lobo parietal direito (visão espacial e arte) fica
"livre" para se expressar sem a interrupção da lógica.
A Nova Visão: O paciente pode começar a notar
cores, texturas e formas que antes ignorava por estar "ocupado
demais" pensando em problemas.
A Redução da Complexidade
O "intelecto reduzido" que traz uma simplificação
da existência. Para o cuidador, isso é doloroso, mas para o paciente, pode
significar um estado de serenidade sensorial.
Pequenos prazeres: Uma música, o gosto de um
alimento doce, o toque de um tecido ou o movimento das folhas de uma árvore
podem se tornar fontes de alegria imensa.
Menos angústia existencial: Como a capacidade de
projeção futura é afetada, o medo da própria morte ou da progressão da doença
muitas vezes desaparece para o paciente, mesmo que permaneça para a família.
A Nova Rotina como um "Novo Mundo"
Ao aceitar que o paciente agora habita essa "nova
visão", a família pode parar de tentar trazê-lo de volta para o mundo
intelectual e começar a visitá-lo no mundo sensorial.
O desafio é: Ver a pessoa não como um
"intelecto quebrado", mas como um ser que agora se comunica por
outras vias — pelo olhar, pelo ritmo e pelo afeto físico.
O código
Sem dúvida essa é a parte fenomenal da cura, ao associar o
sentir a um objetivo, a pessoa tem total interação coma as pessoas, é como uma
língua de sinais ou a língua para cegos.
A pessoa ainda vai aparentar estar em uma condição de
necessidades especiais, mas sabe que o vermelho tem um significado especial,
lógico e recompensador ao fazê-lo.
Essa característica da recompensa pelo uso correto do código
nos remete ao treinamento de animais de outras espécies, isso ocorre exatamente
porque outras espécies não mantem um diálogo com seres humanos.
A transição do processamento cognitivo (abstrato)
para o processamento operante (concreto/sensorial).
A Lógica do Vermelho (Estímulo-Resposta): Se o
paciente não entende mais o conceito abstrato de "perigo" ou
"pare", mas foi condicionado a associar o vermelho a
uma recompensa (um sorriso, um doce, um toque afetivo) ao
interromper uma ação, você criou um "atalho" neural. Você não precisa
que o lobo frontal analise a situação; basta que o lobo occipital reconheça a
cor e o sistema límbico ative a busca pela recompensa.
O "Treinamento" como Linguagem de Amor: Embora
a comparação com outras espécies possa parecer fria para alguns, do ponto de
vista neurológico, ela é brilhante. Você está acessando o cérebro basal,
as estruturas mais profundas e resistentes que compartilhamos com outros seres
vivos. Se não há mais diálogo intelectual (palavras), o diálogo ocorre através
do condicionamento positivo.
A Recompensa como Motor da Interação
Na DFT, a apatia é comum porque o paciente perde a
"motivação interna". O código que você descreve devolve ao paciente
a motivação externa:
Significado Lógico e Recompensador: Ao usar o
código corretamente e receber uma gratificação imediata, o paciente sente-se
bem-sucedido. Isso reduz a agitação e a agressividade, pois o mundo deixa de
ser um caos confuso e passa a ter regras simples e previsíveis.
Interação Total: Mesmo que a pessoa aparente ter
necessidades especiais, ela deixa de estar "ausente". Ela se torna um
agente ativo dentro desse novo sistema de sinais.
A chave para cuidar com dignidade: parar de
exigir o que a pessoa não pode mais dar (intelecto) e começar a valorizar o que
ela descobriu (sensorial). Esse "código" transforma o
cuidado em uma forma de tradução. O cuidador vira o tradutor que converte o
mundo complexo em cores, ritmos e recompensas, permitindo que o paciente, mesmo
com o intelecto reduzido, continue participando da vida e da família através
desse "sentir com objetivo".
No final você percebe que a cura é relativa, é como a cura
para velhice ou cura para a morte. É uma transformação, talvez uma resposta do
corpo humano a busca pelo instinto primitivo.
As memórias residuais são as
"âncoras" fundamentais nesse processo. Elas não são memórias de fatos
(como o que a pessoa comeu ontem), mas sim memórias afetivas e
procedurais (o "corpo" lembra como fazer ou como sentir).
Na DFT, enquanto o intelecto se apaga, essas memórias
profundas, guardadas em circuitos mais resistentes, funcionam como a
"cola" para o código. Elas ajudam o paciente a aceitar o novo sistema
porque ele ressoa com algo que já existia lá dentro.
Abaixo, um exemplo de Mapa do Código Sensorial,
utilizando a lógica de desvio das áreas afetadas para as áreas preservadas.
Mapa do Código Sensorial (O Guia Prático)
Este mapa foi desenhado para converter o ambiente em um
sistema de "navegação instintiva".
O Código das Cores (Substituindo o Planejamento Frontal)
Use cores sólidas e contrastantes para sinalizar funções
básicas. O cérebro occipital (visão) processa a cor antes mesmo de o frontal
entender o que é o objeto.
🟥 Vermelho (Parar /
Alerta): Use em portas que não devem ser abertas ou objetos perigosos
(fogão). A recompensa aqui é o redirecionamento para algo seguro.
🟦 Azul (Necessidades
Básicas/Água): Marque o caminho para o banheiro ou o copo de água.
🟩 Verde (Ação Positiva /
Alimento): Use na mesa de refeições ou na poltrona de descanso.
Como conectar: Sempre que o paciente interagir
corretamente com a cor, ofereça o reforço positivo (um toque
no ombro, um elogio verbal ou um pequeno agrado sensorial).
Memórias Residuais: O "Gancho" Afetivo
As memórias que resistem são as de longo prazo e
as musculares. Use-as para validar o código:
A Trilha Sonora da Vida: Se a pessoa era
religiosa ou amava um gênero musical, use essa música como sinalizador de
tempo. Música clássica = hora de banho; Música calma = hora de dormir. O
cérebro não precisa "pensar" na hora, ele sente o
ritmo e se prepara.
O Toque Familiar: Use texturas que a pessoa
sempre gostou (lã, veludo, madeira). O estímulo tátil no lobo parietal ajuda a
situar a pessoa no espaço quando a visão falha por agitação.
O Fluxo de Recompensa (Processamento Operante)
Para que o código funcione, o ciclo deve ser curto e
imediato.
|
Estímulo (Input) |
Ação Esperada |
Recompensa (Output) |
|
Placa com Foto (Porta do Quarto) |
Entrar no cômodo correto |
Sorriso e acolhimento imediato |
|
Sinal de Luz (Luz amarela acesa) |
Hora de sentar para comer |
O sabor do alimento (prazer sensorial) |
|
Ritmo de Palmas |
Seguir o cuidador |
Contato físico (abraço/segurar a mão) |
Por que as Memórias Residuais ajudam?
As memórias residuais agem como o "software de
base". Se você tenta ensinar um código totalmente estranho, o cérebro
pode rejeitar. Se você associa o código a algo que ele já conhece (como o
cheiro de um perfume antigo ou o ritmo de uma canção de infância), o
"atalho" neural é criado muito mais rápido.
Sabores
Enquanto o espectro de cores visíveis é finito, o sistema
gustativo e olfativo (que andam juntos) oferece uma biblioteca de
dados quase ilimitada e, o mais importante, está diretamente ligado ao Sistema
Límbico (o centro das emoções e memórias profundas).
Na DFT, o lobo frontal pode estar atrofiado, mas o córtex
gustativo e as áreas olfativas costumam ser preservados por muito mais
tempo.
O Código dos Sabores: A Biblioteca de Recompensas
Se as cores guiam o caminho (o "mapa"), o sabor é
o que dá o sentido e a vontade de caminhar (o
"objetivo").
Sabores como Sinalizadores de Tempo e Espaço
Podemos usar a "assinatura de sabor" para que o
paciente entenda onde está e o que vai acontecer, sem precisar de uma única
palavra:
Manhã (Cítrico/Fresco): O sabor da laranja ou do
limão pode sinalizar o despertar. O cérebro associa o frescor à atividade.
Refeição (Salgado/Umami): O uso de ervas fortes
(manjericão, alecrim) cria um marcador de que aquele é o momento de interação
social na mesa.
Noite (Doce/Conforto): Sabores como baunilha ou
mel funcionam como um sedativo natural, sinalizando o descanso.
A Memória Residual do Paladar
O paladar é uma das últimas memórias a se apagar. Sabores da
infância ou pratos afetivos funcionam como um "teletransporte"
emocional.
O "Gatilho de Segurança": Se o
paciente entrar em uma crise de agitação (comum na DFT), um sabor familiar e
intenso (como um chocolate específico ou um café) pode interromper o
curto-circuito frontal e trazer a pessoa de volta para um estado de prazer
sensorial imediato.
A Recompensa Infinita
Os sabores são infinitos. Isso permite que o "Código de
Recompensa" não se torne monótono:
Variedade para evitar a apatia: Pacientes com
DFT podem se tornar apáticos. Mudar o perfil de sabor (do doce para o levemente
picante ou ácido) "acorda" o cérebro, forçando-o a processar uma
informação nova através do sistema sensorial íntegro.
O Código do "Sim": Se o vermelho
significa "Pare", um sabor doce ou agradável pode ser o código para
"Continue" ou "Você fez algo certo".
O Mapa de Sabores no Código de Sobrevivência
|
Objetivo |
Estímulo (Sabor) |
Por que funciona? |
|
Engajamento |
Sabores intensos (Azedo/Doce) |
Desperta a atenção do tronco cerebral. |
|
Calma |
Sabores mornos e aveludados |
Ativa o sistema parassimpático. |
|
Orientação |
Sabores específicos para cada cômodo |
Cria um mapa geográfico baseado no paladar. |
A "Cura" pelo Prazer Sensorial
Ao focar nos sabores infinitos, você está oferecendo ao
paciente uma liberdade que o intelecto não permite mais. Ele
pode não saber mais o nome da fruta, mas a experiência do sabor daquela fruta é
completa, real e gratificante. Nesse ponto, o "Código Duro de
Matar" se torna uma experiência gastronômica de vida: o
paciente deixa de ser alguém que "esquece" e passa a ser alguém que
"degusta" o presente.
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